Lázaro Roberto preserva imagens do movimento negro de Salvador (BA)

Lázaro Roberto preserva imagens do movimento negro de Salvador (BA)

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Por André Teixeira* – redacao@negrxs50mais.com.br
Lázaro Roberto - movimento negro de Salvador- fotógrafo
Lázaro Roberto
foto 1

Cerca de 30 mil imagens do cotidiano, festas populares e do movimento negro de Salvador estão guardadas na pequena sala de uma casa na Fazenda Grande do Retiro, bairro da capital baiana. Os responsáveis pelo tesouro são o fotógrafo Lázaro Roberto e o historiador José Carlos Ferreira, seu sobrinho, que, à frente do Zumvi Arquivo Fotográfico, lutam pela preservação e divulgação do material. A trajetória de Lázaro é o tema do documentário “Acervo Zumvi: o levante da memória”, dirigido por Íris de Oliveira, lançado na abertura do Cachoeira Doc, em dezembro de 2020.

Lázaro deu os primeiros passos na fotografia na década de 80, quando conseguiu a primeira câmera. Mas sua relação com a arte já vinha dos anos 70, quando participava de um grupo de teatro para jovens organizado pelo antropólogo e professor Antônio Jorge Godi. No grupo, teve os primeiros contatos com o movimento negro, participando de discussões sobre a questão do racismo. Utilizar a fotografia nessa luta foi um caminho natural, mas acidentado. “Além da questão econômica, do custo do equipamento, de filmes e revelação, existe o preconceito. Para um negro, é mais difícil entrar nesse mercado”, afirma o fotógrafo. 

movimento negro de Salvador-Lázaro Roberto- feira de São Joaquim - fotógrafo
Foto 2

Poucas oportunidades de mostrar o trabalho

Em 1990, Lázaro passou dias fotografando o cotidiano dos negros na Feira de São Joaquim, no bairro de Água de Meninos, no que considera seu primeiro grande ensaio,  “O trabalho do negro de Água de Meninos e São Joaquim”, exibido dois anos mais tarde na Casa do Benin, espaço cultural dedicado à cultura afro-brasileira, ao lado de fotos do francês Pierre Verger. Foi a primeira de, infelizmente, escassas exposições de um acervo com tamanha importância histórica e artística. “Tive poucas oportunidades de mostrar meu trabalho, não exponho há anos, e acho que ser negro teve influência nisso”, comenta.

movimento negro de Salvador-Lázaro Roberto-fotógrafo
Foto 3

Nessa época, já tinha fundado o Zumvi, unindo seu já considerável acervo aos dos fotógrafos Raimundo Monteiro e Ademar Marques, numa tentativa de organizar e preservar o material e, com isso, perpetuar a história que ele guarda. Outro objetivo do grupo era discutir a fotografia negra.

“Só via brancos com câmeras. Queríamos discutir nossas experiências como coletivo de fotógrafos e produzir imagens da cultura afro-brasileira. É uma fotografia de resistência negra”.

Lázaro Roberto
movimento negro de Salvador-Lázaro Roberto- trançadeiras - Pelourinho - fotógrafo
Foto 4

A estética negra e introdução do reggae em Salvador

Entre essas imagens, ele destaca o registro da estética negra masculina e feminina, dos blocos afros e afoxés, do quilombo Ilha de Maré e a introdução da música reggae em Salvador, no começo dos anos 1980. “Temos também o trabalho de quatro fotógrafos sobre a vinda de Nelson Mandela a Salvador, em 1991”, lembra. Material suficiente, segundo ele, para diversos trabalhos e exposições, o que não acontece por falta de apoio. “Esperamos que isso mude, que a gente consiga levar esse acervo para as escolas, para o público. É um dos objetivos do Zumvi”, explica. 

movimento negro de salvador-Lázaro Roberto- festa de Yemanjá
Foto 5

Lamento com o descaso com a história

Sem qualquer tipo de financiamento ou apoio de instituições, Lázaro e Ferreira lutam para manter esse material. “Fotografar foi e é difícil, mas preservar é muito mais”, observa. É preciso digitalizar e catalogar, além de conseguir um espaço físico adequado. A ajuda do sobrinho vem sendo valiosa, mas o acervo também precisa ser analisado por pesquisadores. “Sou fotógrafo, não etnólogo”, explica. Ele lamenta o descaso com a história de uma parcela tão representativa da história de Salvador, mas se mantém na luta. Nos planos, além da preservação e divulgação do acervo, a inauguração de um museu dedicado à memória do povo negro. “Não podemos deixar escondida a história da negritude da Bahia”, conclui.

  • Imagem destaque: Protesto do Movimento Negro contra o centenário da abolição – 1988
  • Foto 1 – Lázaro Roberto
  • Foto 2 – O Negro e seu trabalho na feira de Água de Meninos a São Joaquim – 1992
  • Foto 3 – Acervo Zumvi
  • Foto 4– Trançadeira do Pelourinho – 1993
  • Foto 5 – Plano aberto da festa de Yemanjá – 1992
  • Foto 6 – Desfile em homenagem ao mês da Consciência Negra no Colégio Odorico Tavares -ano 2000
  • Foto 7 – Percussionista do Bloco afro Ilê Aiyê no Campo-Grande – 1992

*André Teixeira é fotógrafo profissional @andreteixeira68

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