Jornalista Aloy Jupiara morre de Covid-19 aos 56 anos

Jornalista Aloy Jupiara morre de Covid-19 aos 56 anos

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Aloy Jupiara, de 56 anos, morreu no Rio de Janeiro, após complicações da Covid-19. Ele recebeu homenagens de amigos das redações e do mundo do samba
Por Rosayne Macedo e Aziz Filho*

Apaixonado pelo Império Serrano, sua escola do coração, e pesquisador do samba, o jornalista Aloy Jupiara, carioca, de 56 anos, não vai mais pisar a Avenida. Após lutar desde 29 de março contra a Covid-19, não resistiu à potência do vírus e suas complicações. Morreu na noite desta segunda-feira, dia 12, por conta de uma nova infecção pulmonar. Desde abril de 2020 até esta terça, dia 13, foram 186 jornalistas mortos pela Covid, segundo dados da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj).

Aloy estava internado no CTI do Hospital São Francisco na Providência de Deus, na Tijuca, Zona Norte do Rio. Chegou a ter uma breve melhora no quadro no fim de semana, animando amigos e familiares, mas teve nova piora no domingo. O jornalista não terá enterro. Seu desejo era ser cremado. Serão destinados alguns minutos somente para os familiares se despedirem nesta quarta-feira, dia 14, às 14horas, na Capela Histórica da Penitência, no Caju.

Despedida dos amigos de redação

O jornalista não deixa filhos, mas uma legião enorme de amigos e admiradores. Atualmente era diretor executivo do jornal O Dia.

“Ele dava a vida pelo samba”, lembra o jornalista Bruno Thys. Dava a vida não só pelo samba, mas pelo jornalismo. Declarações emocionadas sobre Aloy e fotos dele ou com ele encheram as timelines das redes sociais de amigos jornalistas e gente do mundo do samba. Nos grupos de jornalistas do WhatsApp, sua morte dominou a pauta do dia. Era tão querido que sua precoce passagem chegou a figurar entre os trending topics do Twitter durante o dia.

Aloy Jupiara- jornalista - covid 19
é hora de gritar “vidas negras importam”, gritar com raiva, com paixão, com união, com inteligência. depois, eu preciso por uns minutos de um silêncio, de estar parado, de um traço de paz nos lamentos e dores do mundo. até sorrir. para então retomar a luta. a resistência é feita de amor também (ou principalmente)

Doce, sensível, gentil, generoso, tímido. Um cara sensacional. Um gentleman. São muitos os adjetivos com os quais os amigos e colegas de trabalho o definiram. “Acho que nunca haverá alguém mais doce do que o Aloy Jupiara. Nem uma tristeza tão grande como a de sua partida”, escreveu , diretor do Diário do Porto, Aziz Filho, que também chegou a ser hospitalizado com Covid-19 no ano passado e conseguiu se recuperar. 

Jornalista que perdeu a mãe no mesmo CTI desabafa: ‘a devastação desnorteia’

Da cidade do Porto, em Portugal, onde hoje vive, a jornalista Rosane Serroem luto pela morte da mãe, vítima de Covid-19 em março, também no Rio, comentou a morte do ex-colega de redação. “Era meu amigo querido, chegamos até a trabalhar juntos no Globo Online, mas a vida vivia nos afastando. Eu soube às 3horas da manhã daqui e não dormi mais. Uma cratera no peito. Aloy faleceu no mesmo hospital e no mesmo CTI que minha mãe, exatamente 20 dias depois. A devastação anímica é tão grande que desnorteia”.

Segundo ela, Aloy era tão apaixonado pelo que fazia que vivia seu trabalho as 24 horas do dia. Literalmente. “Não era raro vê-lo num plantão de domingo, inclusive quando era sua folga. Fora isso, foi um homem que amadureceu lindamente, com serenidade e sabedoria. Estava no seu auge profissional, com livros publicados, reconhecimento, o cargo de editor-chefe n’O Dia, buscando um enfoque coerente e consistente na cobertura do noticiário. Vai fazer uma falta tremenda para todo mundo que o amava e para seus leitores também”, completou.

De repórter a diretor, uma vida nas redações

Formado na Escola de Comunicação (ECO) da UFRJ, o editor-chefe do jornal O Dia construiu sua carreira em O Globo, onde, ao longo de 20 anos, foi repórter, coordenador, subeditor e editor e coordenador de política. Sempre inovador, foi pioneiro no jornalismo on-line no Globo, na criação dos sites GloboNews.com e Extra On-line.

Seu amor pelo carnaval se transformou em boas ideias em favor da maior visibilidade do samba. Foi jurado e coordenador do Prêmio Estandarte de Ouro. Nos sites do Globo e do Extra, foi o primeiro a estimular a cobertura on-line mais ampla dos blocos de rua do Rio, até então um tema secundário nas pautas dos veículos.

Aloy Jupiara escreveu com o jornalista Chico Otávio os livros “Deus tenha misericórdia dessa nação: A biografia não autorizada de Eduardo Cunha” e “Os Porões da Contravenção”. Neste, aborda a relação entre a ditadura e o jogo do bicho no Rio de Janeiro. Recentemente, participou do documentário “Doutor Castor”, sobre o bicheiro Castor de Andrade, em exibição no Globoplay.

Defensor do samba como patrimônio imaterial

Resistência - Aloy Jupiara- jornalista- covid19

“Sambódromo, deixei uma rosa branca com a inscrição Resistência. Pelo carnaval, pelo samba, pela saúde das pessoas, pelos que perderam amigos e parentes, pelos que se sentem desprotegidos por políticas públicas, e resistência para todos os profissionais de Saúde da linha de frente do combate à Covid, alguns dos quais pereceram nessa luta. Gratidão a vocês.”

Aloy Jupiara

O texto acima, em homenagem ao finado carnaval 2021, às vítimas da Covid-19 e aos incansáveis profissionais de saúde da linha de frente, foi o último post de Aloy no Instagram, em fevereiro. Pela primeira vez, em muitos anos, o samba não foi para a Avenida que ele tantas vezes pisara, não apenas a trabalho, mas por paixão. A pandemia – que já ceifou mais de 350 mil vidas anônimas ou ilustres – não deixou. E o carioca nascido no mês do carnaval entristeceu, isolado, enquanto estampava nas páginas do jornal a catástrofe humana todos os dias, longe da redação.

O envolvimento com o carnaval carioca levou Aloy a participar do grupo responsável por transformar o samba do Rio em patrimônio imaterial do Brasil, em 2007. O Museu do Samba lamentou a morte do membro de seu conselho deliberativo e “uma das maiores referências do jornalismo brasileiro e da cobertura carnavalesca”.

A paixão pelo samba e o reconhecimento dos amigos

Aloy Jupiara também participou como entrevistador de dezenas de depoimentos da série de história oral “Memória das Matrizes do Samba no Rio de Janeiro”, uma das mais importantes ações desenvolvidas pelo Museu. “Profundamente consternado, o Museu do Samba se solidariza com os familiares, amigos e colegas de profissão de Aloy neste momento de luto”, descreve a nota.

“Nos momentos mais difíceis da história do Museu do Samba, o Aloy sempre esteve à disposição para nos socorrer. Era um exemplo de pessoa e de profissional. O jornalismo perde um profissional ético e dono de um caráter sem igual. O carnaval perde um de seus maiores apaixonados e o Museu do Samba fica sem um de seus grandes pilares. Estou muito triste! Obrigada por tudo, Aloy”.

Nilcemar Nogueira, fundadora do Museu do Samba

Sobre a paixão pelo samba, o amigo e jornalista Chico Alves escreveu no UOL.

“Não se interessava tanto pelo lado glamuroso dos desfiles, mas principalmente pela relação que os moradores das comunidades tinham com as agremiações. Pesquisava a história dos sambistas”. Ainda segundo ele, o “morador do Cachambi, subúrbio da Zona Nnorte do Rio, repetia que não tinha motivos para se mudar para a Zona Sul, como muitos amigos pediam. Achava que o verdadeiro carioca é o suburbano”.

Chico Alves, amigo e jornalista
Aloy Jupiara - jornalista - covid 19

‘Aloy foi um guerreiro, travou sempre o bom combate’

Por Bruno Thys*

Quando assumi a direção do Jornal Extra, em 2005, não tínhamos ainda um site. Precisávamos de um bom jornalista que dominasse tecnologia e conhecesse arquitetura digital. Aloy era vizinho de andar, trabalhava no Globonline e falava essas novas línguas muito bem. O conhecia desde 1994, quando tentei levá-lo para o Jornal do Brasil, por sugestão do Paulo Motta. Ele preferiu ficar no Globo.

Aloy veio trabalhar no Extra em 2006. Agostinho Vieira, que comandava a área de negócios dos jornais, nos ajudou na tarefa. Ele bateu um bolão: tomou à frente a construção do site, inicialmente um blog, que, em pouco tempo se tornaria um dos mais acessados do país. Trabalhava dia e noite, mais noite do que dia, em melhorias contínuas no ambiente digital e, quando necessário, dava um help no “produto analógico“ também. Era excelente jornalista e fez muita coisa no Globo antes de ir para o digital, do qual foi pioneiro no país.

Essa sua opção por trabalhar à noite produziu um episódio prosaico: um dia já de madrugada, desligaram o elevador com ele dentro. Gritou por ajuda e, nada. Relaxou e dormiu até religarem o elevador, na manhã seguinte. Aloy formava no time do “recuo da bateria”, lugar da redação do Extra em que ficava o comando do jornal. Passava boa parte do tempo, porém, na tecnologia, em outro andar. Era simples, culto – estava sempre com um livro na mão – antenado, adorava cinema, teatro samba e muito ligado aos poucos e grandes amigos. Lutava contra um temperamento mais individualista e fez progressos nisso.

Conversávamos bastante sobre temas gerais, literatura, teatro e cinema. Ele era cinéfilo e sabia tudo até de cinema iraniano! Ficávamos felizes quando descobríamos que conhecíamos gente que achávamos que só um de nós conhecesse, caso de Stella Adler, professora de teatro nos Estados Unidos. Aloy lia bastante e escreveu um livro muito bom com o Chico Otávio sobre ditadura, samba e o papel dos bicheiros naquele momento. Ele dava a vida pelo samba. Era organizador e figura central do Estandarte de Ouro, promovido pelo Globo.

Sua vida era a Irineu Marinho, sua família, também. Sofreu muito quando saiu de lá há alguns anos. Perdeu o chão e se trancou até voltar ao mercado. Vou sentir falta das nossas conversas, do bom humor, da alegria das vibrações com as pequenas conquistas do dia a dia que celebrávamos com um cumprimento típico da turma do “rap“. Quando foi internado, tínhamos esperança de que se recuperasse: era novo, não fumava nem bebia. Acompanhamos bem de perto a luta dele. Nos últimos dias, as notícias nos deixaram mais esperançosos.

Estamos todos muito tristes. Muito. Aloy não era de festas, chopes e jantares. Era tímido. Os anjos o guiarão em silêncio à presença do Criador que o receberá com discrição. Aloy foi um guerreiro, travou sempre o bom combate. Ao Chico, Elba, Joyce e a todos os que trabalharam e conviveram com ele os nossos sentimentos, a nossa saudade e eterna admiração.

Aloy Jupiara- jornalista- covid

O último encontro: ‘Ele falava pouco. Era especialista em sorrir’

Por Aziz Filho*

Acho que nunca haverá alguém mais doce do que o Aloy Jupiara. Nem uma tristeza tão grande como a de sua partida. Em janeiro, nós driblamos o isolamento para um chope no Olegário, o último de muitos. Ele, Claudia Silva e eu, inseparáveis há 30 anos. Rimos demais, falamos bem da Mangueira e mal do governo, choramos pelo Brasil e de saudades do Ramiro Alves, fizemos planos para a aposentadoria daqui a uns 30 anos, enchemos a cara até esquecer que o vírus poderia nos separar um dia.

Diante de dois tagarelas, ele falava pouco. Aloy era especialista em sorrir. Depois disso, tentamos mil vezes combinar outra escapadela da quarentena para beber, porque o mundo tinha piorado e a gente tinha que comemorar que um dia tudo isso ia passar. No fechamento do jornal, ele me pedia: “ponha uma foto da Júlia aí, a situação hoje tá braba”. Aloy era muito rigoroso no isolamento, nunca saía de casa.

Em nosso último diálogo, ele tinha acabado de conseguir um lugar na UTI, depois de uma fila angustiante. Eu queria saber detalhes, e prometi rezar muito. Ele contou como estava a saturação do oxigênio (95 com ‘ventinho na fuça’ e 80 sem), disse que não poderia mais ficar com o celular e, para se despedir, mandou um coração vermelho. Foi a última mensagem e ficou aqui no celular, vou olhar sempre que a situação ficar braba.

O último post do Aloy no instagram, em fevereiro, diz o seguinte: “Sambódromo, deixei uma rosa branca com a inscrição Resistência. Pelo carnaval, pelo samba, pela saúde das pessoas, pelos que perderam amigos e parentes, pelos que se sentem desprotegidos por políticas públicas, e resistência para todos os profissionais de Saúde da linha de frente do combate à Covid, alguns dos quais pereceram nessa luta. Gratidão a vocês.”

Eu sei que você vai ficar aí torcendo por nós. Muito obrigado por tudo, meu camarada. Amo você.

*Textos publicados originalmente nos sites Vida & Ação e Diário do Porto

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