Protestos em todo o país por João Alberto e contra o racismo

Protestos em todo o país por João Alberto e contra o racismo

Share With Your Friends

Esse domingo, dia 22, foi marcado pela continuidade dos protestos em todo o país contra o racismo, impulsionados pelo assassinato de João Alberto Silveira Freitas, de 40 anos, na quinta-feira, dia 19. Os atos se concentraram nas lojas da rede de supermercados Carrefour, empresa onde ocorreu o crime na unidade Passo D’areia, em Porto Alegre (RS) na véspera do Dia da Consciência Negra. Um novo vídeo mostra um homem, que vestia roupas iguais às dos seguranças assassinos dizendo a frase: “Sem cena, tá? A gente te avisou da outra vez”.

Toda abordagem até a morte do João Alberto foi filmada e mostra o passo a passo do assassinato. O CEO do Carrefour no Brasil, Noel Prioux, e o diretor de RH, João Senise, apareceram em anúncios nas emissoras de TV pedindo desculpas pelo assassinato. Ainda no sábado, o laudo do Instituto Geral de Perícias do RS (IGP-RS) já apontava asfixia como causa da morte após o espancamento pelos seguranças. Um deles é Giovane Gaspar da Silva, de 24 anos, que é policial da Brigada Militar e trabalhava irregularmente o supermercado. O outro é o segurança Magno Braz Borges, de 30. Ambos são funcionários de uma empresa terceirizada, a Vector Segurança, e foram presos preventivamente em flagrante.

Espancamento brutal e pedido de socorro

João Alberto e sua mulher – Milena Borges – faziam compras e haveria tido um desentendimento entre ele e uma funcionária do supermercado.  Conduzido pela segurança ao estacionamento, foi brutalmente espancado e imobilizado, enquanto pedia socorro. Quando a equipe do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) tentou reanimá-lo já era tarde. A investigação do crime está a cargo da Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) de Porto Alegre.

Parem de nos matar- João Alberto- Carrefour
Reprodução da TV GloboNews

O Carrefour informou, em nota, que lamenta profundamente o caso, que iniciou rigorosa apuração interna e tomou providências para que os responsáveis sejam punidos legalmente.

Carrefour tenta responsabilizar sua terceirizada

A rede, que atribuiu a agressão aos seguranças, chamou o ato de criminoso e anunciou o rompimento do contrato com a empresa de segurança.

Os amigos da comunidade na Vila Farrapos, na Zona Norte da Capital gaúcha o chamavam de João Beto. Um deles André Gomes, disse que ele  “Ele era esperto, brincalhão, amigo para toda a hora”. “Um cara de boa”, definiu Paulão Paquetá, presidente da Associação de Moradores do Bairro Obirici. Os dois moravam a cerca de 200 metros de distância e se conheciam há mais de dez anos.

João Alberto trabalhava como soldador, na empresa do pai e tinha quatro filhos dos dois primeiros casamentos. Com a mulher atual, tinha uma enteada. Há relatos de que os assassinos bateram a cabeça dele no chão por diversas vezes. Mais uma vez um homem negro clamava socorro e pedia para respirar, enquanto os criminosos o pressionavam contra o chão com os joelhos em suas costas, impedindo a respiração. O resultado foi uma parada respiratória e a morte.

Cinco minutos de asfixia

De acordo com as investigações atuais, os seguranças cinco minutos pressionaram Beto no chão por cerca de cinco minutos. O crime até o momento é classificado como homicídio triplamente qualificado. A delegada do caso, Roberta Bertoldo, disse que “jamais se justificaria qualquer tipo de desentendimento, seja ele qual for, para que levasse a efeito tamanha violência como a que ocorreu durante esta ação, desses seguranças, nesse supermercado”.

Coalizão Negra por Direitos

A Coalizão Negra por Direitos, uma articulação que reúne 150 organizações, coletivos e entidades do movimento negro e antirracista de todo o Brasil organiza um boicote ao Carrefour. E classifica como “mais um episódio de violência racial em uma das unidades da Rede de Supermercados Carrefour.” Chama a ação dos seguranças de “covarde” e destacam a impossibilidade João Alberto de se defender.

A entidade lembra que a rede Carrefour é reincidente em casos de violência racial, e, “portanto, precisa ser responsabilizado por essas práticas, o que demonstra que não se trata de exceção, violência racial é regra dentro do Carrefour.”

Assine o chamado pelo Boicote ao Carrefour: https://bit.ly/2UIiGak

Manifesto por boicote nacional

Coalizão Negra por Direitos, articulação que reúne 150 organizações, coletivos e entidades do movimento negro e antirracista de todo o Brasil, que atuam coletivamente na promoção de ações de incidência política nacional e internacional na defesa dos direitos da população negra brasileira, expressa seu repúdio à mais um episódio de violência racial em uma das unidades da Rede de Supermercados Carrefour.

O vídeo que circula nas redes sociais não deixa dúvidas sobre a covardia do ocorrido. Dois seguranças do supermercado Carrefour, sob o olhar de um policial militar fora de serviço, espancam até a morte um homem negro sem nenhuma possibilidade objetiva de se defender. Não é a primeira vez, a rede Carrefour é reincidente em casos de violência racial, e, portanto, precisa ser responsabilizado por essas práticas.

No ano de 2009, seguranças da rede de supermercados espancaram Januário Alves de Santana na unidade de Osasco, ao argumento de que o homem foi confundido com um ladrão. Em 2018, na unidade de São Bernardo do Campo, seguranças espancaram Luís Carlos Gomes porque ele teria aberto uma lata de cerveja no interior da loja. Todos esses casos aconteceram no interior de lojas da rede Carrefour, o que demonstra que não se trata de exceção, violência racial é regra dentro do Carrefour.

Por isso convocamos um BOICOTE NACIONAL em todas as unidades da Rede Carrefour.

Algumas repercussões

Talíria Petrone

Talíria Petrone (Psol), deputada federal

“REVOLTANTE! João Alberto Silveira Freitas foi espancado até a morte, por seguranças, no estacionamento do Carrefour, em Porto Alegre. Um dos agressores é policial militar. A barbárie do racismo estrutural destruindo vidas às vésperas do Dia da Consciência Negra. Até quando?”

ONU Brasil

A ONU Brasil manifesta, em nota pública, solidariedade à família de João Alberto Silveira Freitas, brutalmente agredido na noite de 19 de novembro de 2020 em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul.

A Organização lembra que milhões de negras e negros continuam a ser vítimas de racismo, discriminação racial e intolerância, pede investigação do caso, punição dos responsáveis e convida a sociedade brasileira a construir uma sociedade igualitária e livre do racismo, a partir da Campanha #VidasNegras.

Silvio Almeida, advogado, filósofo e professor

“Afinal, é normal que homens negros sejam espancados e/ou estrangulados nas dependências de um supermercado, não? Não há ironia aqui. É normal mesmo.”

Gilmar Mendes, ministro do STF

“O Dia da Consciência Negra amanheceu com a escandalosa notícia do assassinato bárbaro de um homem negro espancado em um supermercado. O episódio só demonstra que a luta contra o racismo e contra a barbarie está longe de acabar. Racismo é crime! #VidasNegrasImportam.”

Leia também:

negrxs50mais