D. Maria Soares faz 102 anos, com livros e militância
Por Ivan Accioly – editor do Negrxs50mais – ivan-accioly@negrxs50mais.com.br
Neste domingo, 19 de abril, Dona Maria Soares faz 102 anos com lucidez, memória, compromisso coletivo e energia para militância. A comemoração será no Clube Renascença, a partir das 14 horas. Em entrevista exclusiva ao Negrxs50mais ela fala sobre sua paixão pelos livros e de sua personalidade que não consegue ficar indiferente ao que acontece ao redor. Às vésperas de ter inaugurada uma biblioteca com o acervo que acumulou ao longo da vida, mostra visão crítica sobre racismo, educação, feminicídio, LGBTQIA+fobia, política e vida coletiva.
Sempre pronta para a luta, é objetiva no recado em defesa das mulheres: “O homem precisa pensar com a cabeça e não com o pênis.” Em outro momento afirma: “Para os puritanos, ver uma mulher beijando outra mulher é uma agressão. Se vê um homem beijando outro homem, também acha que é agressão. Mas ele tem que aprender a olhar com naturalidade. Ver aquilo apenas como um ato de amor e pronto.”
Sobre a relação com os livros, lembra da origem em seu primário, feito em uma escola experimental criada pelo educador Anísio Teixeira. Afirma que trocava brincadeiras na hora do recreio pela leitura.
Atualmente, aos 102 anos, ainda lê mais de um livro ao mesmo tempo. No momento são quatro leituras simultâneas, que vão de ‘Memórias de Adriano’ à mais recente publicação “Leonel Brizola por ele mesmo”.

O amor pelos livros desde a infância
A menina Maria Soares pulava as brincadeiras com as outras crianças da escola primária para ficar em companhia dos livros. Foi nessa época que as bibliotecas entraram em sua rotina. A primeira delas na experimental Escola Municipal República Argentina, criada pelo educador Anísio Teixeira, ainda na distante década de 30 do século passado. Foi onde descobriu que ler era, além de prazer, uma forma de entender o mundo.
Daquele período traz a lembrança do autor que a encantava com suas histórias, Monteiro Lobato: “Ainda me lembro do vestido da Narizinho feito pelas aranhas. Eu me encantava, eu via aquele vestido, era uma maravilha. Hoje, eu vejo a fantasia, né? Como é que um vestido feito com teia de aranhas ficaria no fundo do mar? Mas eu me encantava”.
“Monteiro Lobato é de quem eu mais me lembro. Sei que mais recentemente o pessoal, o movimento negro, tem uma polêmica com ele, com seu racismo. Hoje eu sei que ele é racista mesmo, pelas falas dele. Mas eu continuo admirando o escritor. Eu comprei para minha filha a coleção dele quando ela era pequena. Atualmente, ao reler Monteiro Lobato, eu acho graça de como eu me encantava com aquilo. Também todos demais livros dele eu acho educativos. Então, dá para fazer esta distinção entre o homem e o escritor. Eu não tiro o Monteiro Lobato da minha coleção de autores”.


“Depois vieram muitos livros, eu lia livros de histórias, lia Jorge Amado, os contos de Andersen, o ‘Mil e Uma Noites’ e muitos outros. Era uma infinidade de livros que não me saciavam. Eu fiz amizade com a professora Maria Navarro e na hora do recreio eu comia merenda correndo e ia para a biblioteca.”
A leitura é parte da formação humana
Fã de Brizola, Dona Maria revela a frustração de não ter visto o político na presidência do país, e lamenta a oportunidade perdida: “Eu tenho certeza de que se o Brizola ganhasse aquela eleição com o Collor, que ele só não ganhou por que motivos óbvios, nós seríamos outros. O Brasil seria outro país se os CIEPs tivessem vingado.”

Ela critica o desmonte do projeto feito no Rio a partir da eleição de Moreira Franco para o governo do estado em 86: “Perto de minha casa tinha um CIEP com uma piscina na frente. Uma das primeiras coisas que o Moreira fez foi cimentar. O que quer dizer é que pobre, para ele, não tem direito a essas coisas. E aquilo era um sonho do Brizola. Já pensou Brizola presidente Darcy Ribeiro ministro da educação. Que reviravolta não teria tido no nosso país.”, afirma. “Eu era fã do Brizola pela obsessão dele pela educação.”
Para ela, o hábito de leitura precisa ser cultivado desde cedo, pois “a criança tem que ser encaminhada”. Em sua visão faltam políticas públicas de incentivo. “Tem que ser uma questão de governo. Botar leis para televisão, jornais, escolas, todos mobilizados”, afirma. Antenada com a tecnologia, considera os celulares “uma praga”.
A literatura negra e o despertar de um país
Carolina Maria de Jesus é a primeira escritora brasileira negra que Dona Maria lembra ter lido, com ‘Quarto de Despejo’. Afirma que não se recorda de mais autores negros brasileiros daquela época e puxa pela memória para chegar a Abdias Nascimento. Hoje verifica um quadro melhor e em evolução.
Sua biblioteca tem clássicos negros como Frantz Fanon, Toni Morrison e Angela Davis. Na literatura brasileira tem acompanhado as autoras e autores que conquistam espaço, especialmente já no século XXI. Entre elas cita a amiga Conceição Evaristo e Djamila Ribeiro.
Mas, mesmo aí, aponta a dificuldade no trajeto: “A aparição da Conceição Evaristo é recente e ela é minha amiga antes de ser famosa. Antes de ser escritora eu já conhecia a Conceição. Até que ela já estava famosa em São Paulo e no exterior e aqui no Rio eu corria várias livrarias, mas não tinha livro de Conceição. Lembro de mim conversando com o vendedor e ele nem sabia quem era a Conceição.”
Ritmo lento e espaços restritos aos negros
Mas a conquista de espaços, segundo Dona Maria, é real, mesmo que mais devagar do que o desejado. Um exemplo é que temas e personagens negros têm ganhado protagonismo. Em dois casos recentes ela estava presente. Foram os lançamentos dos livros ‘Caramurus Negros’, de Marcos Ferreira de Andrade; e da biografia da atriz Léa Garcia, com o título ‘Entre Mira, Serafina, Rosa e Tia Neguita: a trajetória e o protagonismo de Léa Garcia’, de Júlio Cláudio da Silva. Em ambos os casos, diz, havia filas imensas. O problema identificado pelo olhar crítico de Dona Maria está ainda no acesso. “No caso da Léa, a fila ia pela rua afora e a maioria das pessoas era de poder aquisitivo, de brancos. No caso do Caramurus, de preto éramos só eu e minha filha.”

A descoberta do livro sobre os Caramurus destaca três pontos característicos de Dona Maria. A memória, a militância e a sociabilidade. Para ler sobre o livro, funcionou a militância. A palavra “negros” no título de uma matéria da Folha de São Paulo foi o que chamou a atenção. “Basta eu ver a palavra negro que eu vou pesquisar”.
Já a memória fica ligada ao tema do livro, pois o que chamou a atenção foi que se tratava de uma história que a família dela comentava em sua infância. “Era o massacre dos Junqueiras, fato muito comentado lá em casa pelos meus irmãos. A terceira característica, a da sociabilidade, a levou para fila de autógrafos e a entabular uma conversa com o autor e sair com o compromisso de uma entrevista.
“Não estou satisfeita com o comportamento humano atual”
Com uma crítica afiada, Dona Maria relaciona guerras, feminicídio, racismo e violência à forma como a sociedade trata a vida e a morte. “Falam com tanta naturalidade: morreram tantos… Não pensam nas pessoas.” O Cláudio Castro (ex-governador do Rio), diante daqueles mais de 100 mortos (chacina no Complexo do Alemão), disse que a operação foi um sucesso. E confraternizou com a mãe dos policiais, com a família dos policiais. Ele não imagina que entre aqueles cem mortos tem mães honestas, chorando por seus filhos? Que não tem um filho pequeno que dependia daquele pai?”
Dona Maria defende que haja punição para o criminoso dentro da lei e com proteção para sua família. “Há muito bandido, pessoas que, talvez por circunstâncias, seguiram aquele caminho, melhores do que muitos policiais. Quando morre um policial, e fique registrado que eu não quero a morte de ninguém, não quero a morte de ninguém, mas me vem à cabeça: quantos ele já matou? Quantos inocentes morrem de bala perdida? Ou saída do bandido ou do policial? Aquele senhor que morreu vindo de uma festa de aniversário, foram 80 tiros no carro. Foi desumano.”
Ainda sob a perspectiva da morte, Dona Maria diz que chegar aos 102 anos significa acumular histórias, mas também despedidas. “É doloroso falar dos amigos que se foram. Muitas vezes pessoas produtivas, inteligentes, que deviam estar aí contribuindo para a humanidade vão embora. Podia ser eu, que já contribui com o que pude…” E, ao mesmo tempo, não esmorece e segue com vitalidade: “O que me motiva é a vontade de ajudar. Eu nunca soube ficar indiferente aos fatos”.
Fé renovada com novos atos
É com essa disposição de atuar sobre os fatos e com um otimismo inato que analisa sua participação em uma agitada agenda social, com passeatas, atos públicos, palestras, eventos culturais. “Quando eu vejo várias pessoas com atos novos, isso renova a fé da gente né?”

Sobre o machismo e o feminicídio que tomam a sociedade, ela sentencia: “O homem tem que deixar seu machismo de lado e ver que nós somos parceiras não escravas. O homem precisa pensar com a cabeça e não com o pênis. Não deve se levar pela força macha. O mesmo direito que ele tem, temos nós de vivermos nossas vidas.
E com sua experiência, diagnostica: “os pais de hoje ainda têm aquela mentalidade antiga de incentivar o filho, desde pequeno, a ter o domínio sobre a mulher. As crianças já crescem achando que, para ser homem, tem que ser macho. Isso tem que acabar”.
Na mesma linha da sexualidade, combate a LGBTQIA+fobia e defende o respeito. “Eu acho que as pessoas têm que ser respeitadas. Para os puritanos, ver uma mulher beijando outra mulher é uma agressão. Se vê um homem beijando outro homem acha que é agressão. Mas tem que aprender a olhar com naturalidade. Ver aquilo apenas como um ato de amor e pronto.”
Possível fim do racismo e puxão de orelha
Sobre o racismo, Dona Maria acha que um dia vai acabar e dá a receita: Depende de nós pretos e brancos. Os brancos vão entender que não são superiores a nós e os pretos também vão entender que os brancos não são superiores a nós.
No entanto, junto com o otimismo, vem o puxão de orelha nos homens negros. “Uma coisa que eu acho é que todo preto que ascende não leva uma preta com ele, para a preta ascender também. Não leva! Eu tenho um sobrinho que vive com uma mulher branca com cinco filhos. Se fosse uma negra com cinco filhos eu acho que ele não aceitaria.”
Ao comentar insultos racistas, Dona Maria diz que o alvo da ofensa não deve perder de vista quem é. “Eu acho que a gente não devia dar bola para as ofensas que não nos atingem. Pode me chamar de macaca quantas vezes quiser. Eu posso chamá-lo de idiota e até de macaco, porque todo mundo vem da origem do macaco. Então, eu sei quem eu sou, o idiota é quem não sabe.”
Jornada de um século aos trancos e barrancos
Dona Maria resume que ser uma mulher negra ao longo do século 20 e no primeiro quarto do século 21 é uma jornada “aos trancos e barrancos”. Ela afirma que houve melhoras evidentes. Afinal, quando as mulheres puderam votar pela primeira vez, por exemplo, em 1933, ela já tinha nove anos de idade.
No entanto, na intersecção entre gênero e raça, aponta as dificuldades para as mulheres negras. “Apesar de ter melhorado, até hoje a mulher negra encontra barreiras em todos os sentidos para sobreviver. Ainda somos preteridas no emprego ou na política. Ainda somos rejeitadas em muitos setores. Entre uma candidata branca e uma preta, mesmo que a preta tenha mais potencial, quase sempre a branca é preferida. Por isso não podemos parar. Temos que lutar com nossas forças para abrir portas. Dá trabalho, mas é isso!
Aniversário como encontro
Para comemoração dos 102 no próximo domingo, rejeita a palavra “festa”. Diz que depois dos 100, não queria mais esse tipo de evento. A preocupação recai sobre os organizadores e amigos que precisam se deslocar, muitas vezes de longe. Mas afirma que cedeu ao encontro por insistência da filha, Célia, que organizou tudo. Ela resume: “Não é festa não. Eu vou estar num lugar para receber meus amigos. É uma comemoração.”

A biblioteca
Célia, a filha de Dona Maria, explica que resolveu compartilhar os livros de Dona Maria pela riqueza do acervo acumulado. Para a empreitada, alugou um imóvel no bairro de Inhaúma e está, sozinha, transferindo as obras da casa da filha para lá. Várias caixas com os livros já estão no espaço e uma estante está esperando tempo para ser montada. Ela explica que a iniciativa conta com recursos próprios e obedece ao ritmo de sua disponibilidade. A ideia é de que se transforme num espaço cultural que atraia o público ávido por leitura.



Um pouco mais
Maria dos Santos Soares é conhecida como Dona Maria Soares ou Dona Santinha. Nasceu no distrito de Angustura, na antiga Fazenda Santa Cruz, município de Além Paraíba (MG), em 19 de abril de 1924. Filha de Joaquim Soares e Leontina Soares, é caçula de 14 irmãos. Já no Rio, estudou na Escola Municipal República Argentina, no Engenho Novo (RJ), uma escola experimental idealizada por Anísio Teixeira. Trabalhou como professora, costureira, servente, copeira e auxiliar de enfermagem.
Em 1972 se formou enfermagem pela Unirio e em 1997, aos 71 anos, em direito pela Universidade Santa Úrsula (1997). É cofundadora do Colymar (Círculo Olympio Marques), dedicado ao empreendedorismo da população negra.
Imagens: Fotos de Ivan Accioly

