Seminário Milton Santos comemora seu centenário
Redação – redacao@negrxs50mais.com.br
O professor baiano Milton Santos (1926-2001) foi um revolucionário da área da geografia. Ele acreditava que, mais do que uma análise da natureza e dos agentes que atuam sobre ela, a disciplina precisava ser um estudo social sobre a influência do território na convivência humana. No dia 3 de maio o professor comemoraria seu centésimo aniversário. Em homenagem à data, o Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP realiza até 8 de maio, sexta-feira, o seminário Milton Santos 100 Anos – Um Geógrafo do Século XXI. O evento reúne pesquisadores do Brasil e do exterior, que abordam a vida e a obra do professor em conferências, debates e mesas-redondas. A entrada é gratuita e com transmissão ao vivo pelo canal do IEB no YouTube.
Entre 4 e 8 de maio, evento na Cidade Universitária vai reunir pesquisadores do Brasil e do exterior para celebrar a vida e a obra de um dos maiores nomes da geografia, nascido na Bahia em 3 de maio de 1926
O geógrafo francês Jacques Lévy, professor da École Polytechnique Fédérale de Lausanne, na Suíça, será um dos conferencistas no seminário. O evento terá conferências também do sociólogo Miguel de Barros, de Guiné-Bissau, da geógrafa María Laura Silveira, da Universidade de Buenos Aires, na Argentina, e da professora Maria Auxiliadora da Silva, da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Neste dia 6, quarta-feira, às 18 horas, será lançado o livro A Bahia nos Anos 50: Cidade e Região, publicado pela Editora da USP (Edusp), que traz dez textos escritos por Milton Santos ao longo da sua carreira (leia o texto abaixo). Serão feitas ainda visitas guiadas aos acervos do IEB e da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP, que guardam arquivos e obras de Milton Santos.
Nos anos 60 Milton Santos já estudava a relação humana com a tecnologia

“Nos anos 60, Milton Santos já se dedicava ao estudo dos quadros técnicos na vida humana. Ou seja, quando começaram a enxergar as consequências da revolução digital nos anos 90, ele já pesquisava há muito tempo sobre como todo grupo social, especialmente no mundo moderno, tem sua vida integrada às tecnologias”, afirma o professor Jaime Tadeu Oliva, do IEB, um dos organizadores do seminário. “Essa é uma característica de seus estudos que o mantém atual, tanto que o nome do seminário diz que ele é um geógrafo do século 21, porque o seu pensamento é muito relevante até hoje.”
Além de ter sido um precursor dos estudos sobre a relação entre as tecnologias e a vida humana, Milton Santos também fez pesquisas inovadoras sobre a relação do homem com sua moradia. “Ele dizia que a dinâmica social não existia sem considerar a dinâmica espacial. Foi um dos precursores desse ponto de vista. O espaço não é só um palco onde encenamos o drama social. Ele é parte desse drama, é integrante nas nossas vidas”, afirma o professor do IEB.
Oliva lembra que o prestígio de Milton Santos ultrapassa sua obra. “Sua postura intelectual de um homem muito íntegro, que não se vendia ao poder, não se rendia aos partidos políticos e fazia questão da liberdade do pensamento, tem grande relação com a repercussão que ele tem até hoje”, destaca o professor. “Ele tinha uma obra incrível e um pensamento inovador, mas não ficava enclausurado. Dava aulas e fazia palestras pelo mundo todo. Esse seu jeito de ser também impulsionou a quantidade de corações e mentes que conquistou”, acrescenta.
Debates, mesas-redondas e conferências
A influência de Milton Santos pode ser observada na quantidade de trabalhos produzidos com base nos seus documentos, presentes nos acervos do IEB e da BBM. Após a morte do professor, em 2001, sua viúva Marie Hélène dos Santos resolveu doar os documentos à USP, que recebeu quase todo o arquivo pessoal e a biblioteca de Milton Santos. “Marie Hélène sempre frisa que escolheu a Universidade por ser um acervo público. Por isso, é nossa obrigação organizá-lo e promover projetos desenvolvidos por meio dele”, ressalta Oliva. Alguns desses projetos, chamados de residências artísticas e pedagógicas, serão apresentados numa roda de conversa, no dia 8, sexta-feira, às 10 horas.
Abertas ao público em geral, a programação do seminário se divide em diferentes categorias. Uma delas são as conferências, apresentadas por pesquisadores que falarão sobre suas pesquisas e experiências que tiveram trabalhando com Milton Santos. A professora Maria Auxiliadora da Silva, da UFBA, que vai se apresentar no dia 6, quarta-feira, às 16 horas, por exemplo, conviveu com o professor por anos, quando ele morava na Bahia. Seu foco de pesquisa em geografia urbana os aproximava. “É alguém que permaneceu muito amiga de Milton Santos e o conhecia desde o início da carreira.” Também haverá visitas guiadas nos dias 6, quarta-feira, e 7, quinta-feira, sempre às 10 horas.
Mesa no dia 8 discute Milton Santos como homem negro e intelectual de prestígio
Outro tipo de atividade são as mesas-redondas. Elas vão trazer profissionais que discutirão aspectos das obras de Milton Santos. Um exemplo é a mesa-redonda prevista para o dia 8, sexta-feira, às 14 horas, intitulada Milton Santos: a Força Emancipadora de um Intelectual Público. Ela vai reunir o artista musical Salloma Salomão e os sociólogos Mário Augusto Medeiros da Silva e Flavia Rios. “Essa mesa merece destaque especial porque nela vai se discutir Milton Santos como um homem negro e um intelectual de grande prestígio, em especial agora. Ele é uma personalidade com muita força simbólica, que só cresce, na intelectualidade negra e na comunidade negra em geral, por ser uma figura emancipadora. Era um dos únicos professores titulares negros na sua época na USP”, destaca Oliva.
Já as rodas de conversa diferem do restante da programação por convidarem o público a participar do debate. No dia 6, quarta-feira, às 14 horas, a roda Territórios, Cidadanias Incompletas e Relações Raciais no Brasil do século XXI vai contar com dois palestrantes que farão a problematização do tema e, em seguida, qualquer pessoa presente poderá compartilhar sua opinião sobre o assunto. “A nossa expectativa é que o público ultrapasse o ambiente acadêmico”, diz Oliva.
Nascido na Bahia, neto de escravizado

Milton Santos nasceu no dia 3 de maio de 1926 na cidade de Brotas de Macaúbas, na região da Chapada Diamantina, na Bahia, a 580 quilômetros da capital do Estado, Salvador. Seu avô por parte de pai tinha sido escravizado. Formado em Direito pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) em 1948, nunca exerceu a profissão. Era apaixonado pela geografia desde a época do ginásio, quando teve aulas com o geógrafo brasileiro Josué de Castro (1908-1973).
Em 1958, Milton Santos concluiu o doutorado em Geografia na Universidade de Estrasburgo, na França. Além de geógrafo, foi jornalista e escreveu para o jornal A Tarde, de Salvador. Foi trabalhando lá que acompanhou o então candidato à Presidência da República, Jânio Quadros, em uma visita a Cuba, em 1960. No ano seguinte, já eleito, Jânio o nomeou subchefe da Casa Civil na Bahia.
Depois do golpe militar de 1964, Milton Santos ficou 13 anos no exílio, período em que morou em países como Estados Unidos, Peru e Nigéria, voltando ao Brasil em 1977. Foi em 1984 que ele ingressou na USP como professor titular. Em 1994, conquistou o Prêmio Internacional de Geografia Vautrin Lud, considerado um “Prêmio Nobel” na área da geografia.
Professor recebeu 14 títulos de Doutor Honoris Causa no Brasil e exterior
Entre os mais de 40 livros publicados por Milton Santos – em português, francês, espanhol e inglês – estão Por uma Geografia Nova (1978), O Espaço Dividido (1979), Espaço e Sociedade (1979), A Urbanização Desigual (1980), Metamorfoses do Espaço Habitado (1988), A Natureza do Espaço (1996) e Por uma Outra Globalização (2000).
O professor recebeu 14 títulos de Doutor Honoris Causa, concedidos por universidades do Brasil e do exterior – entre elas, a Universidade de Toulouse, na França, a Universidade de Barcelona, na Espanha, a Universidade de Buenos Aires, na Argentina, e as Universidades Federais da Bahia (UFBA) e do Rio de Janeiro (UFRJ).
O Seminário Internacional Milton Santos 100 Anos – Um Geógrafo do Século XXI é promovido pelo IEB, em parceria com o Departamento de Geografia da FFLCH e o Programa de Pós-Graduação em Geografia Humana, também da FFLCH.
O livro traz dez textos do geógrafo
O livro A Bahia nos Anos 1950, de Milton Santos tem 378 páginas. É o 20º e último volume da Coleção Milton Santos da Editora da USP (Edusp), criada com o objetivo de celebrar o centenário do geógrafo e professor da USP. A publicação traz dez textos de Milton Santos sobre o seu estado natal publicados separadamente no início de sua carreira. Neles, o professor expõe pesquisas sobre cidades e redes urbanas baianas. Aborda os problemas sociais vigentes e até tenta solucioná-los. A organização do livro é de Mónica Arroyo e Flavia Grimm.

O texto que abre o livro é O Papel Metropolitano da Cidade do Salvador, onde classifica Salvador como uma cidade de especulação comercial. Explica como essas grandes cidades de “excessiva centralização de recursos sociais e técnicos” esmagam as menores ao seu redor. Para o professor, esses aspectos fazem de Salvador uma cidade que necessita de redes de transporte dinâmicas e incorporadas a um espaço crescente. Aponta, ainda, problemas específicos da metrópole, como a pobreza das indústrias e um turismo mal desenvolvido.
O texto Ubaitaba: Estudo de Geográfia Urbana, que foi seu primeiro estudo sobre geografia urbana. Nele, o professor analisa a história, a formação comercial, a geomorfologia e os meios de transporte do município de Ubaiata. Essa é uma pequena cidade na região cacaueira da Bahia, banhada pelo Rio das Contas. Milton Santos explica que escolheu a cidade como objeto de estudo por sua representatividade em relação à estrutura social e econômica criada com a plantação de cacau no sul da Bahia.
A Bahia nos Anos 1950, de Milton Santos, Editora da USP (Edusp), 378 páginas, R$ 60,00

