Bob Marley, os 75 anos da voz do reggae e do rastafari

Bob Marley, os 75 anos da voz do reggae e do rastafari

Share With Your Friends

Por João Victor Ferreira – do Na caixa de CD*

Bob Marley faria 75 anos em 2020. Sua mensagem e obra perduram até hoje, 39 anos depois de sua repentina morte. O artista projetou sua Jamaica muito além das águas límpidas do Caribe: universalizou o reggae e a cultura rastafári e contribuiu decisivamente para afirmação dos povos negros em várias partes do mundo. Trouxe a luta contra a opressão e o preconceito para a agenda global por meio da música.

Em comemoração, sua família e a gravadora Universal programaram um calendário de eventos para resgatar o legado do astro mais importante que o Terceiro Mundo já produziu. As celebrações tiveram início em fevereiro, com o lançamento do videoclipe oficial de “Redemption Song” no canal oficial do artista no YouTube.

Ao longo do ano, serão lançados 12 episódios da web série “Legacy”, que aborda o impacto da sua obra até hoje. O terceiro episódio foi lançado no dia primeiro de maio. Na era digital, Bob Marley é um dos artistas mortos mais seguidos nas redes sociais.

Desenvolvido pelos artistas franceses Octave Marsal e Theo De Gueltzl, o clipe de “Redemption Song” chega quase 40 anos depois do lançamento dessa icônica canção, lançada por Marley em 1980. O vídeo traz uma animação que reuniu 2.747 ilustrações e usa de símbolos poderosos para destacar a magnitude da letra atemporal da música e ressalta a contribuição de Bob Marley para o empoderamento da cultura negra e sua mensagem de esperança de recuperação para a humanidade. As celebrações de MARLEY75 reunirão música, moda, arte, fotografia, tecnologia, esporte e filme, resultando em um acesso sem precedentes aos arquivos e acervo deixados pelo artista. Veja aqui:  

https://youtu.be/yv5xonFSC4c

Outro clipe lançado dentro desta programação foi “Three Little Birds”, uma animação produzida pelo Seed Animation Studio e com direção de Morgan Powell. Nela um dos refrões mais conhecidos e cantados da discografia de Marley (“Don’t worry about a thing / ‘Cause every little thing gonna be alright”) ganha um significado especial em tempos de pandemia. A mensagem de otimismo recebe divertida releitura em formato de desenho animado juntando os três pequenos pássaros, um dos três porquinhos, o Lobo Mau e um baseado… Confira aqui:

Bob Marley é dono de um quarto de todas as canções de reggae escutadas nos Estados Unidos. No Brasil, o cantor também possui uma incontável legião de fãs. Para se ter uma ideia, São Paulo é a cidade que mais ouve Bob Marley no mundo. Com seu trabalho, o artista acumula bilhões de streams e já vendeu milhões de álbuns. A coletânea “Legend”, que reúne os maiores sucessos de Marley, é o disco de reggae mais vendido no planeta.

Bob, o alemãozinho, e o racismo estrutural

Nascido em 6 de fevereiro de 1945, no vilarejo de Nine Mile, na parte continental da Jamaica, Robert Nesta Marley. Filho de Cedella Booker, da província de St. Ann e parte de uma família de fazendeiros nativos. Enquanto  jovem, Cedella conhece o já adulto Norval, um ex-capitão britânico com quem teve seu primeiro filho. Bob nasce com uma aparência peculiar no meio que vivia, onde a maioria da população era oriunda do escravismo inglês.

Em vários depoimentos, Marley dizia ter sofrido de um racismo estrutural por ter uma pele mais clara que a maior parte da população local, de modo que a sua ascendência se mostrava como um fruto da antiga relação de dominância e escravismo.

Chamado de “alemãozinho” pela sua parte materna da família, em diversos depoimentos, Robert dizia ter que merecer cada refeição que fazia, já que maioria do trabalho pesado na fazenda recaía sobre ele, em maior parte de sua infância. Somente quando tinha 12 anos, ele se muda para Kingston, junto com sua mãe, em busca de uma vida melhor.

Enquanto vivia nos guetos de Trench Town, Bob se expunha a todo tipo de desafios que as desigualdades social e racial empunham. Do gueto vinha a marginalidade, mas das adversidades também partiam a criatividade, sendo uma das fontes musicais mais ricas de Kingston. Por ser o lugar para onde levavam maioria dos escravos e nas palavras de Marley “por carregar um clima pesado”, acaba se tornando uma fonte de inspiração cultural.

Amante de música e entrosado com amigos que amavam cantar e compor, Bob consegue, por intermédio de seu amigo Desmond e do já famoso Jimmy Cliff, gravar o seu primeiro trabalho: “Judge not”, em 1962, quando ainda tinha 16 anos. Por não ter feito tanto sucesso como gostaria, Bob percebe que melhor do que tentar uma carreira solo, era se tornar parte de um grupo musical de sucesso, como já acontecia com bandas como “The Temptations” e “The Impressions”. Assim surge, dos guetos de Kingston, os “The Wailers”.

Do “cha-cha” para o “chaka-chaka”

Em 1962, a Jamaica se torna um Estado independente e com isso a produção artística e cultural do país passa a demandar um produto único que os fizessem ser reconhecidos no mundo. Um ritmo que já era muito conhecido e famoso entre os jamaicanos era o ska, que afirmavam em todo momento o sotaque único em relação aos outros falantes do inglês. No formato da música, se colocava o sotaque e o peso tonal das sílabas nos beats mais fracos da música, ao invés do que normalmente se fazia: essa tendência com uma menor rotação é que gera o ritmo do reggae.

A guitarra elétrica talvez seja a diferença mais icônica na evolução do reggae como gênero musical, deixando para trás o compasso mais lento do ska e partindo para um ritmo mais cadenciado: antes se ouvia mais um “cha-cha”, e com a guitarra isso passa para o famoso “chaka-chaka”. O ritmo era comparado às batidas do coração, associando a paixão que conduzia o compasso da música.

Em 1964, o sucesso “Simmer down” fez com que The Wailers caíssem no sucesso local, regravando muitas vezes músicas de outras bandas inglesas. Uma das maiores dificuldades para o sucesso da banda era o monopólio das gravadoras, denominadas “Big Tree”, fazendo com que todos os artistas que não entrassem no esquema fossem automaticamente esquecidos.

Foi então que os Wailers conheceram o produtor de música independente Lee Perry, responsável por dar uma nova vida pro grupo, além de despertar ainda mais o senso criativo em Bob, junto da sua inspiração religiosa rastafari. O sucesso os leva para Londres, onde encontram Chris Blackwell, produtor que lhes financiou o primeiro álbum completo: “Catch a Fire” (1973).

Preocupações sociais e fama na comunidade negra

Mesmo morando em Londres, Robert ainda se preocupava socialmente com a Jamaica, embora nunca expressando suas reais ideologias políticas. Em 1976, ele organiza o show “Smile” com o objetivo de arrecadar fundos para a população pobre jamaicana. A ação foi vista como uma ajuda à reeleição do primeiro ministro Michael Manley, o que rendeu uma tentativa de assassinato a tiros de Bob e sua mulher, Rita Marley. Parecia que realmente seu foco era alcançar o máximo de pessoas, centrando seus esforços na união principalmente dos negros do mundo inteiro.

Em suas incursões e shows pelo mundo, Marley conseguia influenciar e unir diferentes povos. Sua importância para a união e libertação da cultura negra foi incalculável. A fama nos guetos e comunidades negras em todo mundo era impressionante.

A única resistência que o cantor sofreu por muito tempo, até os seus últimos momentos em turnê pelos EUA, era a penetração nos guetos e na população negra norte americana, principalmente em Nova Iorque. Talvez por uma questão histórica e de segregação racial, ou pelo protecionismo da cultura e música própria dessas comunidades, Bob era muitas vezes coagido a abrir shows de bandas locais menos relevantes e importantes, para poder ser ouvido por um novo público, algo que não afetava o seu ego, já que ele o fazia sem problemas. Isso também mostra o compromisso do cantor com o seu trabalho e a sua mensagem, muito acima do que seria o prestígio e o lucro em cima da sua arte.

Essa resistência não se repetiu quando Bob Marley veio ao Brasil, no início dos anos 1980, para a inauguração de uma gravadora. O evento trouxe o cantor para o Rio de Janeiro e uma pelada de futebol do Politeama na casa de Chico Buarque o uniu a anfitrião, a Toquinho e outras feras da música e do futebol. O artista veio ao Brasil para a inauguração do selo Ariola, que o juntou a outros cantores, também contratados pela gravadora.

Bob Marley em evento da gravadora no campo de peladas de Chico Buarque, com Toquinho e Paulo Cesar Caju Foto: Divulgação

Na sua rotina cansativa e corrida de shows intermináveis, Marley se sente mal em turnê pelos EUA. Seu último show foi em Pitsburgh. Em 11 de maio de 1981, morre com apenas 36 anos, depois de lutar contra um câncer que acometeu maior parte dos seus órgãos.

A sua influência ainda é perceptível no estilo musical de diversos artistas até hoje, sem contar na sua importância para toda a cultura negra e os movimentos de libertação de populações oprimidas. Foi em sua ida para África, no final dos anos 1970, em seu primeiro show na Nigéria, que Bob se apaixona pelo continente. Ele dizia: “aqui é o céu, já que é de onde todos nós viemos”. Os esforços de unificação e paz do artista influenciaram movimentos como o de independência do Zimbabwe, em 18 de abril de 1980.

Assista aqui os três primeiros episódios da web série “Legacy”. Neste primeiro filme, Ziggy Marley e outros integrantes da família conversam com músicos e produtores sobre a abrangência da obra de Bob Marley e a sua influência nos dias de hoje:

O segundo episódio mostra como a temática social das músicas de Bob Marley também foram propulsoras da luta das mulheres por direitos iguais:

O terceiro, episódio aborda a influência da cultura e religião rastafari e como esse universo influenciou a musicalidade e o pensamento de Bob Marley:

Leia também:

*O blog Na Caixa de Cd é parceiro do Negrxs 50+ no compartilhamento de conteúdos.

negrxs50mais