Dia de luta contra o racismo leva manifestantes negros às ruas

Dia de luta contra o racismo leva manifestantes negros às ruas

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Redação – redacao@negrxs50mais.com.br

Manifestações em todo o país marcaram esse 13 de maio como um dia de luta contra o racismo, pelo fim do genocídio da população negra e pela criação de mecanismos de controle sobre a atividade policial. A iniciativa foi organizada pela “Coalização Negra por Direitos”,  uma aliança que reúne mais de 200 entidades da sociedade civil. A chacina na Favela do Jacarezinho, no Rio de Janeiro, com o assassinato de 28 pessoas, das quais, pelo menos 27 pela Polícia Civil, marcou a convocação às ruas.

No Rio de Janeiro o ato foi realizado no fim da tarde, com uma caminhada pela avenida Rio Branco. Os manifestantes saíram da Igreja da Candelária e foram até a Cinelândia, no Centro da cidade. À frente estavam mães de jovens assassinados que carregavam suas fotografias. Em meio à pandemia, cem por cento dos manifestantes usavam máscaras.

Mensagens como “Nem bala, nem fome, nem Covid. O povo negro quer viver”;   “Parem de nos Matar”, “Chega de Chacina”, “Fora Bolsonaro” e “Brasileiros com fome” passavam os recados dos manifestantes. Além dessas, outras com viés econômico, como as de apoio ao auxílio emergencial no valor de R$ 600 até o fim da pandemia e a defesa do SUS.

Genocídio da população negra

De acordo com a Coalizão, somente no ano de 2020, mais de 5.600 pessoas foram mortas pelas polícias no Brasil. Dessas, 75% jovens negros e negras das favelas e periferias. Em carta aberta divulgada para convocação dos atos, o grupo destacou: “Vidas e histórias exterminadas pelas forças do Estado, sem respeito e nenhum direito previsto em lei. Corpos cuja humanidade e cidadania são negadas na vida e na morte. Assassinatos resultantes de uma operação policial ilegal e proibida pelo Supremo Tribunal Federal (STF)”.

Ainda de acordo com a Coalizão, mesmo com a decisão do ministro Edson Fachin do STF, que restringiu ações nas favelas do Rio, mais de 823 pessoas foram mortas em operações policiais entre junho de 2020 e março deste ano.

Bruna Silva, mãe de Marcus Vinícius, assassinado durante uma operação policial no Complexo da Maré, na Zona Norte do Rio, em 2018, carregava a camisa do uniforme escolar que o filho vestia quando foi alvejado. Ela destacou que buscou forças para defender sua memória: “Para a polícia não bastou matar, teve que criminalizar a criança. Nossos filhos têm direito à vida. Meu filho me perguntou: ‘Mãe, o que eu fiz para a polícia? Eles não viram a roupa da escola?’”

Deputada quer missão da ONU para Jacarezinho

Lista com os nomes dos assassinados no Jacarezinho

Mônica Cunha, que teve seu filho adolescente, Rafael da Silva Cunha, assassinado pela polícia em 2006, liderou um dos momentos mais emocionantes da manifestação. Nele os familiares leram os nomes de 28 mortos na chacina. Entre eles o do policial André Leonardo de Mello Frias. Ela explicou: “Todos são seres humanos. Todos têm nome e sobrenome nessa chacina do Estado brasileiro.”

A deputada Renata Souza (Psol) criticou a política de segurança dos governos estadual e federal. Segundo afirmou,  ambos apostam em “uma política de segurança que aposta na morte e que olha os moradores das favelas e periferias como corpos descartáveis”. Nessa semana, o mandato de Renata  solicitou ao CNDH (Conselho Nacional de Direitos Humanos) e à ONU uma missão especial urgente para acompanhar as investigações sobre as mortes no Jacarezinho. A situação é tão grave que o acompanhamento externo é essencial para garantir a lisura das investigações.”

A deputada estadual Dani Monteiro (Psol) lembrou que o 13 de maio é o dia da falsa abolição. Para ela um ato “que libertou nossos corpos (negros) para serem escravizados pelo capitalismo”. Segundo afirmou, hoje os aplicativos são um novo tipo de escravidão ao qual os jovens negros estão submetidos. A única opção que vê é “a mobilização e a luta.”

Cestas básicas

Em outro ato, pela manhã, a Frente Nacional Antirracista (FNA) distribuiu duas mil cestas básicas para famílias na Favela do Jacarezinho, além de camélias, flor símbolo da luta contra a escravização no século XIX. Segundo a Central única das Favelas (Cufa), nove mil pessoas foram beneficiadas.

Manifesto da Coalizão Negra por Direitos

Neste 13 de maio, Dia Nacional de Denúncia Contra o Racismo, a Coalizão Negra por Direitos, uma aliança que reúne mais de 200 organizações de todo país, convoca manifestações em todos os Estados pelo fim do genocídio negro, das operações policiais assassinas, das chacinas de todo dia e pela construção de mecanismos objetivos de controle social da atividade policial. Exigimos:

  • I – Que se informe os protocolos empregados para prevenir o uso de força letal e a vitimização da população civil, especialmente de pessoas negras, nos termos da resolução;
  • II – Que seja garantida uma investigação independente, célere, transparente e imparcial, conduzida por órgão independente, alheio às forças de segurança e instituições públicas envolvidas na operação, nos termos da obrigação;
  •  III – Que seja formado um corpo pericial independente, que garanta a imparcialidade e transparência para investigar os assassinatos, observando-se os termos do Protocolo de Minnesota;
  • IV – Que os familiares das vítimas e todas as pessoas que sofreram violações sejam devidamente reparados;
  • V – Que haja uma enérgica atuação por parte do Ministério Público Estadual do Rio de Janeiro e Ministério Público Federal para que haja a responsabilização das forças policiais;
  • VI – O imediato afastamento das forças policiais dos responsáveis pela Chacina de Jacarezinho; VII – Que seja cumprida a decisão do STF na ADPF das Favelas;
  •  VIII – Que seja implementada a condenação internacional recebida pelo Brasil no caso Favela Nova Brasília, também localizada no Rio de Janeiro;
  •  IX – Que seja criado pelo estado do Rio de Janeiro um plano de redução da violência e letalidade policial, conforme já recomendado pela Corte Interamericana de Direitos Humanos; X – Que sejam adotadas políticas de proteção à segurança e integridade das testemunhas que vivem na comunidade de Jacarezinho, bem como das defensoras e defensores de direitos humanos que estão atuando na comunidade e na denúncia desse caso.

Imagem destaque, fotos e vídeos de Ivan Accioly/Negrxs50mais

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